terça-feira, 2 de agosto de 2011

FICÇÃO - DESTINO

Conto publicado no Cinform em julho de 2010
DESTINO
São três horas da manhã. Sem sono, exausto com seu ofício desgastante executado durante todo o dia, ele andava de um lado para outro demonstrando total excitação. Foi até à varanda, tomou um pouco de café quente, preparado poucos minutos antes; acendeu um cigarro e tragou de forma violenta a fumaça. Deitou-se na rede, companheira de todas as noites; levantou-se em seguida e foi à cozinha pegar algo para beber.Aquele era um ótimo momento para se tomar um bom vinho, pelo menos aliviaria sua mente cansada e preocupada com as adversidade da vida moderna.Tomou a bebida em um só gole, arrotou de forma vulgar, acendeu um outro cigarro e foi caminhando em direção ao quarto, de repente, ligou o computador e retomou as atividades deixadas para trás alguns minutos antes. Fechou o arquivo o qual estava contido seus trabalhos  e entrou em um site de relacionamentos.Teclava apenas para fugir da sua ansiedade excessiva que lhe consumia dia e noite; conversou de forma edificante com algumas poucas pessoas e foi atormentado por alguns caçadores por alguns caçadores de sexo de plantão, nada mais.Não obstante, quase na hora de desconectar-se do site, quando ele já distribuía os boas-noites aos internautas, aparece na telinha do computador um apelido atrativo: “ anjo”.  A hora de dormir já se fazia breve, mas pelo menos haveria mais um motivo de acender outro cigarro à mesa do computador até que ele soubesse quem seria aquele ser celestial que resplandecia em sua tela.Ela era o “anjo” ele “ o arquiteto”, na sala de bate papo, os dois.Conversaram. A interação virtual já passava das três horas ininterruptas. Para quem ficaria em frente ao computador só até acabar de tragar um cigarrinho, até que demorou bastante tempo. Aos poucos, conversa vai, conversa vem, risos pra cá, risos pra lá, ele foi percebendo que o divino anjo era realmente um ser de outro mundo. Criatura rara que era essa mocinha, daquelas que não se encontra em qualquer esquina. Com o passar das madrugas, devagarzinho, o cansaço de antes já não se fazia mais presente. O anjo acabou proporcionando as noites de insônia do arquiteto em madrugadas sorridentes e interessantes. Agora, a falta de sono era por uma justa causa. Ele adorava teclar com a linda moça, pois ela o fazia feliz. As virtudes dela vinham de longe, aliás, bem longe, exatamente 2321 km era a distancia que os separavam, mas estavam eles ali, pertinho, bem pertinho, separados apenas pela distância, mas unidos virtualmente. Bendito computador. Bendito mesmo!Quando por um motivo maior ela não estava online, o seu mundo desabava de tão acostumados e íntimos que estavam um com o outro. Quando a ausência da moça era notória, ele se sentia vazio.
Coincidências constantes, situações comuns, opiniões que se completavam, conselhos dados e pedidos, gargalhadas e brincadeiras. Tantas peculiaridades em tão pouco tempo já fazia dela uma pessoa muito especial, ele, pra ela, da mesma forma. Já estavam tão íntimos que já sabiam tudo um do outro. Durante os diálogos dos dois, conversavam sobre tudo: religião, política, educação, música, artes, sexo, este último era um dos assuntos mais debatidos entre os dois.Chegaram até pensar na possibilidade de morarem juntos. Ele morar na cidade dela, ou ela, na dele. Tanto faz, isso é o de menos, o importante agora é que querem ficar juntos, na mesma cidade, no mesmo lugar. Chegaram até mesmo pensar em algo mais formal: um casamento. Por que não? Mas o arquiteto falava que jamais gostaria de ter um filho, aquilo  lhe tiraria a liberdade. Nossa! Filho não, filho eu não quero. Meu salário mal dá pra sustentar-me. Me pagam uma miséria por esses malditos projetos que faço.Não, um filho não.É uma prestação pra vida inteira, não que não goste de crianças, pelo contrário, eu as adoro, mas filho me tiraria a liberdade e comprometeria parte do meu pequeno orçamento, dizia ele. Ela também não queria, aliás, já tinha um, que morava com o genitor deste, pra que outro filho?Não, eu também não quero, dizia ela.
         Passaram-se alguns dias e de repente um desejo. Um pedido.Uma confirmação:
 - sim, eu irei aí te ver, meu amor. Já comprei as passagens.
Em fim, o encontro. A realização. Como eram bons aqueles momentos ali, juntos, os dois. Não havia mais distância, pelo menos naquele momento. Não havia mais a tela do computador para dividir-lhes, como barreira, a felicidade plena. Os dois, ali, juntos, a sós. Muitas coincidências. Muitos planos para o futuro. A mesma casa. O mesmo quarto. A mesma cama. Um só corpo. Uma só carne. Tudo lhe era perfeito, permitido, bem-vindo, menos um filho, filho não.O tempo se esgotou.Ele precisava retornar.Precisava voltar à sua cidade, ao seu trabalho, aos seus projetos.O aeroporto, o avião, o outro aeroporto. Chegou, em fim à sua cidade natal. Com certeza, aqueles quinze dias que passaram juntos foram, para ambos, os melhores das suas vidas. Se divertiram como crianças e se amaram como ninguém.Mas aquilo iria se repetir em breve, muito em breve, eu acho.
Sim, ficariam novamente separados pela tela do computador, por enquanto, só por mais um tempo. Em breve, estariam juntos para sempre. Nada separaria aquele amor,nada.Mas apenas eles, nada de filho, filho não. Em breve estariam juntos novamente e dessa vez para sempre.
Passaram-se as semanas e de repente um enjôo. Uma surpresa. O choro. A confirmação.
 - Estou grávida!
 - Alô! Alô! Alô, amor?!. Estou tão feliz e ao  mesmo tempo assustada, lindinho.Adivinha?!

 - O houve? Por que está tão nervosa?
 - Estou grávida! Você vai ser papai.!

- Quê!

Do outro lado da linha, só se ouvia o pam pam pam  do telefone desligado de forma grosseira com a mulher ainda a falar e chorar. Esse foi o último  contato que ela teve com o arquiteto. Depois disso, Iris nunca mais teve notícias dele. Ligações, cartas, e-mails foram destinados a ele,entretanto foi tudo em vão.Ele sumiu misteriosamente.
Íris, em seu computador, chorosa e desiludida,  os últimos resquícios do arquiteto excluía: fotos, e-mails e vídeos. Da memória, a garota deletava os bons momentos, os projetos e os sonhos. Ela queria apagar tudo que tivesse relação com o passado ainda muito recente, infelizmente, o que carregava na barriga, não poderia ser eliminado, pelo menos não deveria, aliás, a barriga, a cada dia que passava, crescia. O arquiteto sumira para sempre, mas parte dele estava ali naquela cidade tão distante. Essa imagem,personalizada na criança, nunca mais se apagaria da mente da moça.

Rafael Dias
  
Prof.: RafAEL Dias
Twiter: @RafaelDias8
Facebook: rafaddcarioca@hotmail.com
Blog: gramanaticadias.blospot.com
Fone: (79) 9805-3160



Nenhum comentário:

Postar um comentário