sexta-feira, 8 de julho de 2011

CONTO - ERA UMA SEXTA-FEIRA À NOITE

Era Uma Sexta-Feira à Noite

*Conto publicado no jornal Cinform em junho de 2010

Era uma sexta-feira à noite. Madrugada.  Aquele barrigudo berrava ao microfone fingindo cantar. Resolvi ir embora, mas não queria ir pra casa de barriga vazia. No entanto, minha carteira desnutrida não abrigava mais que quinze míseros reais, que inclusive tinha roubado da bolsa da minha irmã. Caminhei até duas barangas chegarem a mim pra pedir um cigarro. Trocamos umas idéias, mas fingi querer dar uma mijada pra ir embora logo dali. Mulher feia me dava azar. O jeito era ir pra casa chocar ovo. Talvez, pegaria o finalzinho do Cine Privê, assim, salvaria a noite e esvaziaria um pouco minhas bolas, que já estavam pesadas e dificultando a jornada. Paro num ponto de táxi e simplesmente contemplo as duas mulheres mais lindas que já vi em todos os meus verdes jovens anos; daquelas que ninguém recusaria um “sim” diante do padre, no altar, jurando amor eterno até que a morte os separasse.  Fiquei estático com a beleza hipnótica das gatas. Parecia um pau, ali, parado, com a boca entreaberta e os olhos vidrados nas musas. Uma delas, a mais gostosa, cujos peitos eram as coisas mais lindas, simétricas e perfeitas que eu pude um dia contemplar, estava fumando; puxei logo um cigarro, fingi estar sem isqueiro e cheguei na cara dura. Comecei a puxar papo. Marina e Silvia Orlandi eram seus nomes. Gaúchas. Conversamos por uns 10 minutos. Não estava prestando atenção em porra nenhuma do que me falavam, só conseguia imaginá-las nuas em minha cama. Enquanto empurrava goela abaixo o último gole da cerveja, fiquei perplexo com a cena que vi: Orlandi e Marina pareciam uma única pessoa de tão grudadas que estavam. Beijavam-se deprevadamente enquanto me olhavam com os cantos dos olhos de vez em quando. Eu parecia um vira latas faminto e pidão implorando por um pedaço de carne fresca, mas sabia que só iria chupar osso. Não rolou nada, aliás,queria mesmo era a amizade delas. Uma prova disso é que assim que meu táxi chegou, convidei-as para o meu ap pra tomarmos umas brejas e queimarmos uma beck.Apenas agradeceram, mas pegaram meu endereço e prometeram aparecer outro dia, deixando claras as suas intenções  de serem  apenas minhas novas  belas amigas lésbicas. Quando vou entrando no carro, uma coroa que estava pertinho da gente, pediu desculpas e perguntou se aceitaria rachar o táxi, pois iria pra o mesmo bairro que eu. Falei que sim.

 - Mora sozinho? – Com minha irmã. – E você? Divido ap com uma amiga. – ótimo!Talvez pudesse ser compensado à altura pela injustiça que o destino tinha feito minutos antes. Ela deveria ter tomado uns 10  goles de wodka. Percebi pelo hálito, mas aquilo me atraía: uma mulher bêbada,bonita e gostosa!No táxi mesmo me convidou pra irmos ao seu ap. Aceitei sem pensar duas vezes. Quando chegamos, se fingindo de mais bêbada do que já estava, saiu do carro e não tirou um centavo do bolso pra ajudar a pagar o taxista. Paguei sozinho. Entrei na casa dela. Assim que sento no sofá, escutei um gemido de mulher e de homem. Perguntei quem era. -  meu  irmão.  - Mas você não disse que morava com sua amiga? - Sim, mas ela já se mudou. – E quem é a mulher? Não respondeu. Me convidou para o quarto. De lá mesmo gritou: - Godofredo, tem camisinha aí?Achei aquilo muito louco!Eu ia comer a irmã do cara e ele ainda me cederia uma camisinha!  - Querem quantas? Disse o Mané - Uma só basta, respondeu a coroa. Eu ouvia os ruídos vindos do outro quarto, e eles, os do nosso.  A coroa bêbada, balbuciando as idéias, rindo feito louca, começou a conversar com o irmão em pleno ato. Conversavam enquanto eu tentava me concentrar. Me pediu pra ser rápido antes que o namorado chegasse. Parei. Mas que depressa levantei com as calças nos joelhos e saí tropeçando pelo quarto e corredor da casa – A chave? – Não estou achando.  – Por que não me falou que tinha namorado? – Não me perguntou. – Por que não me disse que ele podia chegar a qualquer momento? – Ficou calada. Depois de 5 minutos de desespero que pareciam uma eternidade, achamos a chave; saio correndo pelas escadas do apartamento ainda abotoando a calça. Tropeço no quinto degrau, levanto, caio novamente antes de abrir o portal principal, ergo-me mais uma vez e saiu  pela rua como um louco.O cinto ficara, as calças caindo, a cueca com alguns furos a mostra. Lugar sinistro aquele.Sou surpreendido por uma  puta chuva. Agora ensopado. Nada da amiga com quem dissera que dividia o ap, sem grana – teria que voltar a pé – e, acima de tudo, ainda com fome.Não deu tempo...Depois de andar uns 30 minutos,peguei uma carona no carro do lixo.Àquela altura, o que viesse era lucro.Eu, ali, trepado no caminhão de lixo,cheirando carniça,  amaldiçoando  as gaúchas lésbicas por não terem aceitado o meu convite honesto; arrependido por ter ido àquela merda de show, a casa da coroa. O Cine Privê seria mais lucrativo. E, além de tudo isso, estava obsessivamente pensando na idéia de, quem sabe, Orlandi virar a casaca e ser minha. Eu sei, o mau cheiro já me fazia delirar. No outro dia, minha irmã me acorda dizendo que vai dormir na casa do namorado e sai. Em seguida, a campainha soou. Assustado, achando que poderia ser o tal namorado da coroa, abri a porta receoso e me aparecem as duas lindas amigas gaúchas que conheci na noite anterior. Estavam alucinadas.Me disseram que queriam estudar prática avançada da anatomia sexual e gostariam que eu fosse a cobaia. Então, tomado por uma estranha lucidez, respondo de pé firme: -  Não poso agora, estou fazendo minha leitura mensal do  manifesto comunista.Fechei a porta e voltei a dormir.
Rafael Dias

2 comentários:

Anônimo disse...

Já tinha lido esse conto. Acho que fui uma das primeiras pessoas a ler.
Que noite tensa, acho que o cara vai precisar de ajuda psicológica.
Abraços Rafa.

Professor Rafael Dias disse...

Sim, sim. Realmente você foi uma das primeiras pessoas a ler o conto antes da publicação no Cinform. Sempre palpitando de forma inteligente numa coisa ou noutra.Obrigado por acompanhar meus textos, Edilton! Abraço!

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