Charutos Cubanos
Mal podia esperar o momento que a cretina voltaria do Rio. Tudo que iria lhe dizer é o que deveria ter falado há muito tempo. Eu sempre quis olhar bem nos olhos dela, sorrir debochadamente e lhe dizer toda a verdade que sempre camuflei por estupidez.
Minha cabeça latejava por causa da ansiedade excessiva de vomitar todos aqueles verbos sem eufemismos acompanhados sempre por gritantes predicativos, claro.
Na adversidade, a ninguém procurei. Pra amigo nenhum liguei. Nem pra minha mãe contei. O sapo? Engoli só. É sim!
Cansei de ser expressão ambulante e mórbida do amor.
Do Rio ela retornou.
Nervosamente, não fique andando de um lado para o outro na casa, como muitos fazem por aí. Estava tranquilo. Olhava pra o espelho e ensaiava meu discurso imponente com movimentos bem articulados exprimindo toda minha emoção e eloquência. Mal esperava pra metralhá-la com as verdades engasgadas dentro de mim. Achava (completamente enganada) que a sua beleza e sensualidade exóticas de mulata brasileiríssima iriam mudar o rumo a qual marchava a nossa estória naquele momento. As luzes do palco iriam apagar e os espectadores, em silêncio, cabisbaixos iriam sair.
Resolvi, então, aguardá-la. Fiz a barba. Pus o blazer e esperei. Falou que iria chegar às sete. Ainda eram seis. Me sentei e baforei um cubano maravilhoso. Charutos e vinho foram os meus companheiros naquele momento. Ansioso?Nem um pouco. Nada. Agora eu tava tranquilo. Chegado tinha a minha vez. O dia da vitória. Ela iria, enfim, ouvir o que precisava. Agora, já poderia até morrer em paz. Sinceridade?Estava ali só por consideração mesmo. Tinha que esperá-la, aliás, tinha dado a minha palavra, portanto, jamais poderia deixar de ser homem honrado que sou. Entretanto, quando ela chegasse com seus olhinhos chorosos implorando clemência, eu agiria.
André me ligou chamando-me pra sair; achei melhor ficar em casa, embora a noite estivesse maravilhosa pra baforadas e goladas em outro lugar, preferi ficar no casulo. Depois a Mila me ligou, Cleofas e a Linda - que linda realmente era - me convidaram pra sair, eu disse que sim, mas depois voltei atrás. Tinha um compromisso e deveria honrá-lo, por isso, preferi ficar em casa e esperar. Era uma atitude honrosa de um homem de verdade, nada mais que isso. Era o máximo que poderia fazer antes da rajada verbal que a esperava. O silêncio na sala imperava. O som tinha desligado e a acabei adormecendo. Subitamente, despertei ouvindo uma pancada na janela, do lado de fora, e uma voz que bradava: cheguei!Cheguei! Atordoado com o barulho, tropecei no pé do móvel da sala derrubando os restos mortais do charuto já apagado em minhas mãos. Ansioso e ainda turbado com as batidas, balbuciei parte do discurso já ensaiado antes e fui ver a porta.
Não era ela.
Os cubanos me fizeram companhia durante toda a noite. Eram bons!Já era uma da madrugada e ela, até então, não tinha chegado. Pacientemente, continuei baforando fumaça e bebendo vinho.
Ainda restavam dois charutos e meia garrafinha de vinho.
Rafael Dias
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